dois mil e dezessete

São irmãs gêmeas.
Quase siamesas.
Tão ligadas que uma não existe sem a outra.
No entanto, bem diferentes, divergentes, implicantes.
Convivem sim, mas a uma distância, digamos, segura.
Sempre foi assim e assim sempre será.

De onde vieram? Ninguém sabe.
Uma corrente crente, potente, acredita, com fé, que seu pai é um verdadeiro deus.
Outra vertente conclui, em prova veemente, contundente, que sua mãe é a própria Natureza.

Das irmãs, uma é vista como um verdadeiro milagre de beleza!
Já da outra, bem, não se fala boa coisa, quer-se mais é distância.
Cruz-credo, esconjuro…

Mas atenção! Cuidado multidão de incautos!
As aparências continuam enganando!

Se você é dos que consagram e elegem a mais bela, uma advertência:
por ter nascido frágil (e ela sabe que é assim!), tornou-se exigente – e dependente – como uma garota mimada.

Para que libere todas as suas benesses, ela exige ser bem alimentada, superprotegida de todos os perigos, totalmente curada de todos os males, hollywoodianamente entretida em seus momentos de tédio e por aí vai.

E como se tudo isso não fosse suficiente, exige mais: ser reproduzida infinitamente.
Uma dica: ela dará muito valor se você mostrar que é um connoisseur quando o assunto avançar sobre a grande arte da seleção natural.

Mais: mesmo sabendo que são puras utopias, trate também de lhe prometer a felicidade, a paz, a eternidade. Estes são, para ela, temas caros, mimos profundamente desejados.

Ah, sim, mais uma coisa: sua maior exigência é ser mantida bem longe de sua irmã. Mas nunca pergunte o porquê. Ela fará um escândalo, chorará baldes, fará cenas, ameaçará com chantagens, dirá que são problemas familiares, que não são da sua conta, etcetera, etcetera.
Se você quiser saber a razão desta reação, procure conhecer sua gêmea. Mas com cuidado…

Mudança de tom necessária para falarmos dela, a irmã.
Na verdade, não sabemos quase nada a seu respeito. Até porque, quem chegou a conhecê-la bem, por algum motivo estranho não voltou para contar o que achou. Talvez seja um bom sinal, vai saber…

O máximo que podemos dizer sobre ela é que é soturna, reclusa, calada, tem um ar sombrio, frio, gelado eu diria. De fato, uma desconhecida quase total. E talvez por isso, ninguém a queira por perto, em festa nenhuma. Daí, parece que, por não se conformar com sua solidão forçada, resolveu se especializar na arte de penetrar sem ser vista, aparecer de repente, nos momentos mais inesperados, mais indesejados. Dizem que conhece como poucos a fragilidade da irmã e assim fica só à espreita, de tocaia. Inveja? Nunca saberemos…

A seu favor, entretanto, podemos dizer que, em determinadas ocasiões, sua presença pode até ser considerada um alívio, um consolo para algum sofrimento maior, um quê de bondade em horas ao avesso. Ao contrário de sua gêmea, a única exigência para que apareça – se é que ela pode exigir alguma coisa – é que sua irmãzinha também esteja presente. Isso é tudo. Simplória e frugal como só ela sabe ser. Diz-se até, à boca pequena, que tem uma índole boa, boas intenções, que ela é apenas uma consequência, nunca a causa.

Ah, você insiste em saber de onde elas vêm.

Tudo bem. Eu repito que ninguém nunca realmente soube quem são seus pais. Por enquanto, só existem teorias. De concreto, sabe-se apenas que elas estão entre nós desde que o mundo é mundo. Aliás, mesmo antes, acho que desde que o universo é universo. Pelo menos neste onde a gente existe, é assim. Estão presentes em tudo e todos, tanto nos encontros – inclusive os a nível atômico – quanto nas despedidas.

Na verdade, são elas as atrizes principais dessa interminável peça universal, “A Transformação”, cujo roteiro é baseado no constante aparecer e desaparecer dos seres, dos astros, dos dias, dos anos, das construções, das situações, dos relacionamentos, das dimensões, de tudo enfim.

E é isso.

Ah, sim, antes que eu me esqueça, uma se chama Vida.
Sua irmã, você provavelmente já adivinhou, chama-se Morte.

São gêmeas.
Quase siamesas.
Aceitá-las como são, é e sempre será nosso eterno dever-de-casa.

O ano que está prestes a finar-se exigiu que a gente fizesse e refizesse muitas vezes esse dever.
Espero que entremos no novo ano com várias lições aprendidas, mas sempre sabendo que novas estarão à nossa espera.

Enfim, como a esperança é a última que morde, meu desejo é que todos tenhamos um belo e feliz ano novo, cheio de grandes e boas transformações.

Beijos e abraços em todos.

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