Ainda não voltamos do futuro…

Belo país, de lindezas e riquezas mil, protegido e estabilizado em plataforma continental antiga e sólida, pulmão do mundo e abrigo das mais variadas espécies. Borbotões de água aflorando de seu solo e, através de belas e serpenteantes estradas fluviais, encontrando as ondas de seu vasto litoral. Belíssimo lugar, abençoado por Deus e bonito por natureza, como diria o grande filósofo Jorge Benjor.

 

Imagino o Brasil numa era pré-histórica, ou pouco menos, quando ainda não tinha nome nem fronteiras. Imagino preguiças e tatus gigantes, multidões de pássaros, nuvens de insetos e imensos cardumes ocupando seus vastos espaços e águas. Escolas de baleias e golfinhos nadando sem medo ao largo de seu imenso litoral.

 

Imagino o ar puro e fresco invadindo narinas e focinhos, ocupando pulmões agradecidos, livre da fumaça dos inexistentes vulcões, fruto das benevolentes doações de imensas samambaias, frondosos ipês, resistentes jacarandás, imbuias, mognos, paus marfim e brasil, frondosas bromélias, a fornecer oxigênio para todos. Tudo funcionando, tudo se equilibrando, tudo se complementando, a vida seguindo sua trajetória, dentro da programação básica estabelecida por Mãe Natureza.

 

Mas…

Eis que um belo dia, e não faz tanto tempo assim, descendo as Américas, vindos da Ásia, onde já éramos muitos, atravessando o então atravessável Estreito de Bering até encontrar o que milênios mais tarde seria o Brasil, chegamos nós, os humanos. Eeeeee!

 

Éramos então pré-índios somente, parecidos com japoneses, chineses, orientais em geral, e fora uma fogueirinha aqui, uma caçadinha ali, um desentendimentozinho entre os grupos acolá, nossas pegadas ainda podiam ser engolidas pela selva.

 

Mas, dado que o mote natural é “crescei e multiplicai-vos”, partimos rapidamente para a produção de curumins. E vieram as tribos-com-nomes-bonitos: Tamoyos, Nuaruaques, Gês, Tupis, Guajajaras, Guaranis, Krenakore, Tapuias, Waimiris Atroaris, Kayapós. E junto com elas, ou a partir delas, vieram ocas, mandiocas, tabas, tuxauas, pajés, morubixabas, tupãs, quarups, huka-hukas, pirarucus, cariocas, ipanemas, itacoatiaras, itaquaquecetubas, pindamonhangabas, morumbis.

 

O fato é que sorrateiramente, mas não em silêncio, nossa grande invasão havia começado. Agora tinha fumaça de fogueira, tinha galhos quebrados, troncos cortados, caititus e veados e pacas e tatus caçados em maiores quantidades. Mesmo assim, e a essa altura inicial do campeonato, apesar dessa multiplicação humana, as ainda complacentes flora e fauna não davam sinais de se sentirem invadidas.

 

No entanto, as maiores emoções ainda estavam por acontecer…

E aconteceu que, de repente, chegaram as caravelas. E os portugueses dentro delas. Chefiados pelo capitão P. A. Cabral e com o ‘consentimento’ de Sua Alteza Real, o Rei de Portugal, tomaram posse dizendo que a terra era sua, que era boa e generosa, que em se plantando, tudo dá, que eles eram ‘os descobridores’ e que eu-vi-primeiro-e-ninguém-tasca, ó pá. Talvez não soubessem, ou não quiseram saber, que muito, muito antes, fenícios e chineses já haviam estado por aqui e deixado essas terras em paz…

 

Enfim, como não havia alfândega naquela época, sua bagagem passou sem vistoria. Daí que, além dela, trouxeram de contrabando – em suas cintas, mentes e corpos – espadas, catequeses e doenças.  E com esse ‘arsenal civilizatório’, dizimaram e/ou escravizaram populações & espíritos e transformaram esta Terra Brasilis, pura e generosa, em um imenso fornecedor de riquezas portuguesas, um playground para os bandeirantes. Dela retiraram o que puderam: ouro, madeiras nobres, o pau-brasil quase foi extinto, pedras preciosas, especiarias e muchas otras cositas más. “Aqui temos tudo que queremos, aqui nos tornamos a própria companhia das índias”! Literalmente…

 

Com o passar do tempo, o Brasil foi sendo ‘civilizado’, catequisado, explorado, escravizado, dividido em capitanias hereditárias, entregues a leais e fidalgos donatários, que passaram a ser ‘donos de terras’, provavelmente os primeiros tu-sabes-com-quem-estás-a-falar, fosse isso do agrado dos habitantes originais ou não.

 

E assim surgiu a ‘nova’ população brasileira formada pelas misturas instantâneas de índios, negros escravos, portugueses degredados e espontâneos, judeus fugitivos da Inquisição ou não, holandeses, franceses e, mais tarde, ingleses, italianos, japoneses, poloneses, alemães, imigrantes em geral atraídos por esta ‘terra da promissão’, dando origem a mulatos, mamelucos, cafuzos, nisseis, branquelas de olhos azuis e morenas de olhos verdes, enfim, a uma imensa paleta de cores, mentes e sotaques que, a bem da verdade, criou este gigantesco e riquíssimo caldo cultural, muito mais substancioso e rico do que qualquer caldo verde da Portugal original.

 

There goes the king…

Mas o mais surpreendente imigrante de todos, a joia da coroa, foi… a própria coroa. Nesta terra que já era pródiga em inquisição e escravidão, D. João Balalão, fugido de Napoleão, com o Império Britânico a cuidar da sua proteção, vem se esconder nesse cantão e instala aqui o novo centro de coroação, com direito a rapapés e beija-mão sem esquecer as coxas de frango no bolso do calção.

 

E como ‘grande administrador’ europeu que era, além de expulsar moradores de suas casas para nelas abrigar a família real e sua corte, trouxe também novos impostos e inaugurou, além de portos e universidades, a Real Mentalidade Brasileira, que é simplesmente uma questão de ordem: “aqui quem manda primeiro é o rei e depois sua corte, a igreja e as ‘boas’ e contribuintes famiglias”. E foi assim que Sua Majestade nos ensinou, desde então, a se curvar diante de gerações de excelências – condes, duques, fidalgos, coronéis, deputados, senadores e ‘graduados’ funcionários públicos – e a tratá-los respeitosamente de acordo com seu ‘alto cargo’, sim sinhô.

 

Garantiu-nos também que aqueles que nos representam e trabalham por nós incansavelmente merecem cada centavo dos impostos que pagamos. Que é mais do que justo que tenham polpudos holerites repletos de aditivos, ilimitados planos de saúde, carros oficiais sempre renovados, apartamentos funcionais garantidos, auxílios moradia, viagem ‘às bases’, alimentação, combustível, offshores, além de outros mimos.

 

Além disso, catequizou-nos, e tirou os dentes e a vida de quem se revoltasse, para nos mantermos como uma boiada mansa, gentil e dependente e nunca sabermos que temos o direito de exigir um serviço público de qualidade, afinal somos tão criativos que, certamente, poderíamos inventar muitos ‘jeitinhos’ para sobreviver. E, como regalo colateral aos foroprivilegiados ‘doutores’, esse modus vivendi lhes concedeu a eternidade das promessas-que-jamais-se-cumprem em suas campanhas eleitorais.

 

Perguntas?

Enfim, abundam as perguntas: afinal, que espécie de democracia é o Brasil? Ah, temos o direito ao voto! Mas que sistema eleitoral é esse nosso? Votar em quem? Em trocentos mil candidatos sem a mínima qualificação para exercer o cargo a que se propõem? Em políticos profissionais, aparecendo risonhos nos cartazes de vote-em-mim, mas que, fora as exceções de praxe, pensam apenas em continuar no poder e garantir vida e aposentadoria gordas? Será que ainda é possível acreditar que realmente existem partidos no Brasil? Com diferentes ideologias e programas? Será que ainda é tão difícil perceber o que realmente se passa debaixo do recém-levantado tapete mágico das castas políticas? Que nas entranhas de congressos e palácios, TODOS, independentemente de partido, se entendem entre si e traçam planos conjuntos que os beneficiem e protejam? Será que ainda vamos continuar a nos dividir, a brigar com amigos e família, a cortar relações antigas por causa dessa turma? Será que ainda vamos insistir em vê-los como ídolos, pais-da-pátria, mães guerreiras ou doutores?

 

Com certeza, todos esses séculos de consciente negligência política em relação às necessidades básicas de um povo nos fizeram muito mal. Não só nos privou de saúde e educação pública de qualidade, para dizer o mínimo, como ainda tem proporcionado um aumento boçal na distância entre as classes. Resultado: somos uma população que não consegue se enxergar como a verdadeira dona desse belo pedaço de continente, patroa e, portanto, (boa!) pagadora dos (polpudos!) salários de todos os cidadãos que optaram por se tornar funcionários públicos, desde o cargo mais humilde até a presidência da república (que, hoje em dia, tenho minhas dúvidas se é o salário mais alto…).

 

A acachapante verdade é que nossos ‘representantes’ e o seu aterrorizante nível são o triste retrato de séculos de submissão e empedramento de paradigmas. Enfim, passados quinhentos e tantos anos do ‘descobrimento’, o tal do ‘futuro’, do qual somos o país, só será promissor se estivermos todos de acordo que existe a necessidade de uma mudança radical de mentalidades. Um trabalho que deve durar gerações, mas que tem que começar já!

Deixe uma resposta